Work

Manifesto de Produto — Rock Enchantech

Workshop
Facilitação
Time-to-Learn

Um workshop sobre tomada de decisão sob incerteza. O que aconteceu quando seis times enfrentaram o mesmo problema, chegaram a soluções completamente diferentes — e tiveram o contexto virado de cabeça para baixo no meio do caminho.

Workshop Manifesto de Produto na Rock Enchantech

O problema que antecedeu o workshop

Existe uma confusão silenciosa que se instalou nos times de produto nos últimos anos.

Confundimos velocidade de entrega com qualidade de decisão.

Não é falta de capacidade técnica. Não é ausência de boas práticas. É um problema de interpretação: passamos a aceitar throughput como evidência de performance, sem questionar a qualidade das decisões que antecedem a entrega.

O resultado é uma ironia cara: organizações que se tornaram altamente eficientes em executar decisões ruins.

O Manifesto Ágil surgiu como resposta a décadas de processos rígidos que produziam sistemas que chegavam tarde e desalinhados com os usuários. A revolução era necessária. Mas o mercado capturou a parte mais visível — entregar rápido — e deixou de lado a parte mais difícil: decidir bem antes de entregar.

Quando o contexto mudou — quando o risco deixou de estar na incapacidade de entregar e passou a residir na qualidade das decisões que antecedem a entrega — o modelo não acompanhou.

Foi a partir dessa tensão que nasceu o workshop.

O que foi proposto

A proposta para o offsite da Rock Enchantech era simples na teoria: tirar os times de uma lógica de output e colocá-los numa estrutura de experimentação orientada a aprendizado.

Sair do Time-to-Market como commodity. Tensionar o Time-to-Learn como novo princípio orientador.

Na prática, isso significou colocar seis grupos em contato com um conjunto de evidências simulando a rotina real de uma pessoa de produto — adaptado ao contexto da empresa:

  • e-mail topdown
  • ticket de atendimento
  • áudio de cliente impactado
  • dados fragmentados

Tudo propositalmente ruidoso. Tudo exigindo interpretação. Nenhuma resposta certa disponível.

A instrução era filtrar o ruído, definir o problema real e construir a hipótese mais barata possível para começar a testar.

O que aconteceu na sala

Diante dos mesmos insumos, cada time chegou a uma leitura completamente diferente.

Para alguns, era falha operacional. Para outros, problema de comunicação — e uma notificação push seria suficiente para resolver. Isso, por si só, já revelava a complexidade do produto em questão.

Quando o RICE entrou como instrumento de priorização, havia conforto. O framework oferecia objetividade. As iniciativas ficavam comparáveis. Os grupos debatiam, ajustavam, pontuavam.

Mas havia uma premissa implícita sustentando toda aquela objetividade: a de que o contexto era estável.

É raramente assim.

A ruptura

No momento em que os grupos estavam mais seguros em suas análises, os wildcards chegaram.

Cada time recebeu um evento inesperado que alterava a leitura inicial:

  • regulação pesada com prazo inegociável
  • MAU subnotificado
  • cliente representando 20% da receita exigindo prioridade imediata

RICE saindo de 80 para 400. Despencando de 250 para 50. O que parecia decisão estruturada entrou em colapso.

A sala se transformou. Deixou de ser um ambiente de execução orientada e começou a operar como produto opera de verdade: decisão sob incerteza e pressão constantes.

Um dos grupos, pressionado pelo wildcard do cliente de alta receita, produziu instintivamente duas versões do RICE — uma refletindo o cenário original, outra incorporando a nova pressão de contexto. E apontaram para o recém-apresentado CPO com uma proposta: “agora a gente leva isso pro diretor decidir a prioridade.”

Isso não é fuga. É rotina em produto. Somos guardiões do trade-off.

O que o RICE não resolve

Quando utilizado como ferramenta de priorização definitiva, o RICE transmite uma sensação de segurança que não passa disso: uma sensação.

Ele organiza a decisão dentro de um portfólio. Mas não valida as premissas que sustentam essa decisão.

Sem validação, não temos priorização. Temos uma ordenação de opiniões com carinha de método — e suscetível à pressão do próximo wildcard.

A pergunta que deveria anteceder qualquer priorização não é “o que devemos priorizar?” É:

“O que precisamos aprender para tomar essa decisão com mais segurança?”

Essa mudança parece simples. Ela altera completamente o trabalho.

A Confiança como evidência

O ponto mais negligenciado do RICE é o C — Confiança.

Na maioria dos usos, Confiança é um número que o grupo chuta com base em feeling. O que o workshop propõe é diferente: Confiança é evidência acumulada. E existe uma progressão clara entre tipos de evidência — da intuição pura ao teste A/B em produção — onde cada nível sustenta uma decisão com um risco correspondente.

O que isso muda na prática? A pergunta operacional se torna:

Qual é o menor experimento possível que me permite ganhar confiança para decidir?

Durante o workshop, um dos grupos — composto por pessoas de dados e produto — desafiou essa lógica. Propuseram um teste A/B extremamente simples: uma variação leve, de baixo esforço, aplicada em um fluxo já existente, capaz de gerar relevância estatística em pouco tempo.

Contrariava o que eu mesmo apresentava como referência. E estava certo.

Esse foi um dos momentos mais valiosos do workshop — porque deslocou a discussão para onde ela precisa chegar: como desenhar o próximo passo inteligente o suficiente para aprender rápido, sem pagar custo desnecessário.

O que ficou

O workshop não terminou como planejado. Quando notei o aprendizado acontecendo de forma orgânica e independente — a sala operando como um organismo vivo, premissas sendo questionadas, decisões revistas — a decisão deixou de ser sobre cumprir o plano e passou a ser sobre priorizar valor.

Exatamente o que o workshop ensina.

O que ficou para os participantes: questionamento antes de execução, distinção entre ideia e hipótese, e a percepção de que decisões em produto não são estáticas — são provisórias e dependentes do contexto que as sustenta.

O que ficou para a Workshopee: a confirmação de que o método funciona, e que o momento mais valioso de um workshop não é quando tudo segue o plano — é quando o contexto muda e os participantes sabem o que fazer com isso.


O Workshop Manifesto de Produto está disponível para times e empresas. O conteúdo é adaptado ao contexto de cada cliente.